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A arte a alimentar monstros de Lady Gaga

por joanacontente, em 13.11.13



Quando vimos a senhora Gaga apresentar-se, nos MTV Video Music Awards em 2010, com  famoso meat dress ficámos a saber que a Lady não queria ser papada. Ficámos também com um vislumbre de que as suas maravilhosas e exuberantes ideias, que resultam num festival visual para as multidões comerem, não eram uma receita secreta. Aliás, o vestido de carne que usou naquele dia, desenhado pelo estilista venezuelano, remeteu-nos para algumas das nossas memórias e reconhecemos-lhe o paladar. Desde a performance Meat joy (1964) de Carolee Shneemann, à capa do álbum de 1983 dos The Undertones, no qual nos surge uma senhora vestida com pedaços de carne, passando por outras performances, incluindo de Marina Abramovic, em que é usada carne e ossos ao vivo, ou a aparição de Linder Sterling em 1980 numa actuação com um vestido, adivinhe-se, de carne, as aproximações são demaisado evidentes e cheira-nos a esturro. 


 Recentemente, a senhora nem gaguejou quando nos presentou com um vídeo do último álbum, no qual surgem diversas referências artísticas. Ícones do cinema, da música, da pintura, tudo é servido num prato generoso e que deve servir as multidões. Lady Gaga vive para o applause e assume-o. Mas este vídeo não é uma estreia. Na verdade, ao longo do tempo a senhora Gaga tem-nos revelado um interesse particular pela arte, apropriando-se dela nas suas aparições musicais. Algumas são demaisado óbvias, outras nem tanto, mas esta miscelânea de referências tem agora o seu auge quando lança o álbum intitulado ARTPOP. 

A lady, de facto, não gagueja. E se Andy Warhol trouxe a pop para a arte, porque não trazer a arte para a pop? Não há problema algum, mas confesso que me causa alguma indigestão. Se a receita fosse original e a criação de facto eficaz eu ficaria de barriga cheia. Mas esta apropriação da arte a benefício de quase nada e sem qualquer acrescento, a não ser multidões de monstros a aplaudir, não garante que de facto as referências artísticas usadas sejam valorizadas. É um restaurante fast food, com talheres de prata. E quem vai ao Mcdonalds, não quer saber de talheres. A grande diferença entre a arte e o entertenimento é a eficácia daquilo que é apresentado, sendo que em lugar nenhum na História a eficácia artística se mediu pelo número de aplausos. Ou de seguidores. Ou de likes.
 
Se a Art pop é um monstro a ser alimentado ou não, o tempo o dirá. A certeza é que há coisas que valem prata e ouro.

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