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A morte do espectáculo

por joanacontente, em 23.01.14

No contexto das artes performativas contemporâneas, deparamo-nos actualmente com a questão da pertinência do espectáculo teatral convencional. Nos meados do século XX, o teatro e a dança traçaram percursos na sua História que colocam as suas características essenciais de cena em debate, pelas rupturas radicais que se fizeram surgir. No teatro, pelo abandono da literatura teatral, da apresentação do actor, em vez da representação da personagem, pela quebra da quarta parede, que dá lugar a um contacto directo com o público, tornando-o co-criador. Na dança, o abandono do repertório da dança teatral, da formalidade e virtuosismo do bailarino. A performance chegou para ficar. Mas quanto é que roubará ao palco? Em que medida devemos ser apenas descritivos do que se passa, ou prescritivos, ou protectores do teatro e da dança como os conhecemos?

O teatro pós-dramático deixa-nos num lugar de desconforto histórico, deixa-nos perdidos no meio de códigos estéticos mesclados uns nos outros. Não sabemos muito bem para onde estamos a caminhar, mas percebemos bem que o caminho do espectáculo, do palco, já mudou. Mas será que o palco morreu e ninguém o avisou? A educação artística, técnica, já não passa pelos mesmos parâmetros que passava há trinta anos atrás. Há vinte. Há dez. Há cinco. A evolução da cena de palco, das necessidades criativas e do espectador acelararam os processos evolutivos e é dificil entendê-los. Se assim o quisermos. O tempo, o espaço e o corpo do espectáculo falam uma nova linguagem e, muitas vezes, abandonam o lugar espectacular da sua cena, abandonam o palco, as personagens, o virtuosismo, a boca de cena, os projectores, os figurinos e sobretudo o texto e o repertório... É urgente estar de olhos e ouvidos bem abertos para perceber, com humildade, que o teatro e a dança não são o que eram quando os encontrámos pela primeira vez. 

 

Artistas como Yvonne Rainer, há quase cinquenta anos, marcaram radicalmente este processo, não só pela forma como criavam, mas também como teorizavam as suas criações. Em 1965, quando escreve o No Manifesto, a artista radicaliza o espectáculo como era conhecido, propondo novas formas, novos caminhos criativos e interpretativos, novas possibilidades artísticas, numa necessária ruptura com o que se conhecia e fazia até então.

 

NO to spectacle.

No to virtuosity.
No to transformations and magic and make-believe.
No to the glamour and transcendency of the star image.
No to the heroic.
No to the anti-heroic.
No to trash imagery.
No to involvement of performer or spectator,
No to style.
No to camp.
No to seduction of spectator by the wiles of the performer.
No to eccentricity.
No to moving or being moved.

 

O drama do teatro de hoje é que o drama desaparece. E não desaparece só estruturalmente. Desaparece, estruturalmente, e desaparece do espectáculo. O drama do teatro de hoje são os fragmentos do drama, a desconstrução, a multimédia como extensão da acção, o autobiográfico. O drama do teatro de hoje é que tem de lidar com os extremos - com o espaço vazio ou com o caos, com o silêncio ou com a confusão sonora e estridente, com a palavra sem o texto. Tem de lidar com as co-criações, que só cada conjunto de criadores sabe o que isso significa, em projectos que atiram o encenador ou o coreógrafo para um canto da história (ou para o canto de um outro projecto).   

 

Em 2005, Jérôme Bel coreografou Véronique Doisneau para a Ópera de Paris. Um espectáculo de dança, sobre a dança, para uma bailarina. O que se pode ver é precisamente um encontro do manifesto de Rainer com o palco. Doisneau dança, mas não nos códigos convencionais coreográficos. Dança, sim, numa linguagem de movimento não estilizado, não espectável coreograficamente. Mas o espectáculo da dança está lá.






 

A oito dias de se reformar, a bailarina aceita a coregafia para o grande palco que é a Ópera de Paris. Não se trabalha uma vida para terminar assim, sem uma sequência de movimentos ensaiados rigorosamente, para colminarem num mar de aplausos e de bravos, a ouvir-se o cansaço do respirar, amplificado, para todos o sentirem, num silêncio de um espaço vazio. Uma coreografia que não depende do coreógrafo, mas que é construída a partir da pessoa que a bailarina é, numa apresentação autobiográfica e de uma democracia artística assinalável. O desafio de Doisneau está precisamente na questionamento do que é a dança, hoje.

 

Das poucas coisas que podemos perceber com toda a clareza é que a história mudou, desde há cinquenta anos para cá. Se o espectáculo de palco morreu ou não, não sabemos ainda, mas como o conhecíamos envelheceu. Não creio que morrerá. Ele é imortal, pelo menos enquanto houver vida humana nesta Terra. E se for morte por um lado, será nascimento por outro. Ou rejuvenescimento.

 

Outra coisa que sabemos, porém, é que o show must go on.

 

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