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Suspensão - de Stelarc ao Hook Life

por joanacontente, em 11.11.13
Suspension:  hanging the human body from (or partially from) hooks pierced through the flesh in various places around the body. 

http://www.suspension.org/hooklife/wp-content/uploads/2012/08/1.jpg
 
 
Quando Stelarc iniciou em em 1976 as suas acções de suspensão, o conceito inerente a estas intervenções foi desenvolvido com base numa exploração de corpo, numa perspectiva de descoberta das suas limitações físicas e psicológicas. 
 
Nas suspensões, o corpo é puxado por cabos e por ganchos que perfuram a pele, alongando-a. Esta exploração do limite do corpo revela uma ampliação da sua arquitectura anatómica, compondo no espaço uma paisagem da pele alongada. O corpo passa a constituir uma escultura que é apresentada no espaço/ar, na qual a pele deixa de ser a fronteira do ser, um início do corpo no mundo, uma separação. Ao ser perfurada e rasgada, por instrumentos tecnoclógicos ou mecânicos que são entendidos como instrumentos de suporte e não de suspensão do corpo, a pele deixa de comportar em si a sua função de separação ou de superfície, revelando uma diferente possibilidade e apresentado novos limites físicos.     
 
O trabalho com o corpo exausto e ferido expõe um dos mais relevantes conceitos sobre o corpo, na sua relação com o mundo e com o ser - a sua obsolescência. Para Stelarc o corpo, assim como a pele como acabamos de ver, é obsoleto. Como o vivemos e entendemos o nosso corpo está ultrapassado, constituindo algo de quase arcaico. Foi necessário redescobrir as novas potencialidades desta coisa física que temos ou que somos. Na verdade, estas questões não se colocam com o corpo segundo Stelarc, que passa a ser um objecto de experimentações que nos permitem fazê-lo acompanhar e prever o mundo tecnológico, ultrapassando as suas limitações físicas. 
 
O corpo é então zombie e cyborg. Para Stelarc, o corpo age involuntariamente - zombie - e constitui em si um sistema homem-máquina - cyborg - que poderá ser desenvolvido com a ajuda tecnológica a fim de podermos desenvolver todas as suas potencialidades. Como o próprio afirma, we fear what we have always been and what we have already become. Assim, o artista tem trazido novas perspectivas para o nosso entendimento do corpo, tratando-o como obsoleto. Como o conhecemos, o corpo já não é útil, revelando uma necessidade de se adaptar, não só à era tecnológica, mas sobretudo a uma nova perspectiva conceptual. Como tal, não existe nada de religioso ou espiritual nas suspensões, apesar da associação quase imediata a algumas práticas ancestrais. O que está em causa é a relação com o próprio corpo e o entendimento que temos dele na sua mais crua fisicalidade. Não existe levitação, nem alteração do estado de consciência, nem tampouco qualquer metodologia espiritual aquando da suspensão.
 
Isto remete-nos para a teoria de Deleuze sobre o corpo sem orgãos, segundo o qual devemos repensar o corpo e as suas funcionalidades. Apesar de Stelarc explorar esta questão de uma forma exclusivamente física, o objectivo do conceito do corpo sem orgãos é precisamente explorar e produzir realidades diferentes daquelas a que o corpo está quotidianamente exposto. O corpo passa a ser improdutivo no sentido da sua utilidade rotineira, para se apresentar disponível à experimentação de sensações, da intensidade sensitiva. Esta desorganização do corpo permite a abertura de novos caminhos para a exploração de novas possibilidades de vivência humana e sensorial. E é este corpo sem orgãos, este conceito da ausência de um organismo que o limita e castra para a experimentação do desconhecido, que está igualmente presente e que caracteriza o trabalho de Stelarc. 
 
Esta exploração dos limites do corpo, através da suspensão, tem visto um movimento crescer por todo o mundo. Hook Life é um dos principais sítios na internet com informações sobre esta prática. O que Stelarc fez com o intuito da exploração conceptual do corpo é cada vez mais visto como uma actividade que qualquer um pode praticar, como se de um hobbie se tratasse. Segundo a mesma fonte, o objectivo da suspensão em última análise é a própria experiência. Se as pessoas o fazem por adrenalina ou por questões espirituais ou por simples curiosidade, não é relevante. O objectivo é proporcionar a experiência da suspensão e deste momento em que, segundo o próprio Stelarc: To be suspended is to be between states. To be neither one nor the other. To be in suspense is neither being able to participate in the present nor able to anticipate the outcome. Performing with neither memory nor expectation. Performing without a past and denying a future.
 O antigo guitarrista dos Red Hot Chilli Peppers, Dave Navarro fez isso mesmo para relaxar, divulgando a acção e postando o vídeo do momento. E segundo ele, o truque é não pensar.
Existem cinco posições principais para a suspensão - Horizontal de face para cima (“Coma”), Suspensão vertical pelo peito (“O-Kee-Pa”); Suspensão vertical pelas costas (“Suicide”); Horizontal de face para baixo ("Superman") e Joelho (“Falkner”). Além destas, podemos ainda ver diversas formas e posições de suspensão que poderão ser baseadas em pinturas ou esculturas, como a Criação de Adão, ou várias pessoas em suspensão a formarem o Davinci Tandem, entre posições de animais, bailarinas, astronautas, etc..
 
O que para Stelarc constituía uma exploração cuidada e atenciosa dos limites do corpo, de uma forma bastante consciente e teorizada, hoje vemos a mesma prática ser explorada de uma forma mais aberta, na qual todos podem participar. Na Europa, existem dezenas de grupos espalhados por vários países que organizam eventos de suspensão, nos quais podemos experimentar os limites do corpo, transformando-o numa escultura suspensa ou numa paisagem da nossa pele alongada. 
 
Será isto o preliminar do corpo obsoleto de Stelarc em Pop Art?
 
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